O Montanha Pico Festival é um festival de artes criado e produzido pela MiratecArts

EXPLORAÇÃO SONORA NAS CAVIDADES VULCÂNICAS

Montanha Pico Festival

O projeto

Criar uma performance em tempo real nas grutas é um enorme desafio à criatividade. Sem as as condições perfeitas que um palco normal dispõe e com uma sempre imprevisível acústica, aqui o foco é a liberdade criativa como meio de exploração do som e da conexão direta com o público e a natureza.

A inclusão na programação do Montanha Pico Festival

O Montanha Pico Festival é um festival de artes criado e produzido pela MiratecArts e em parceria com a Secretaria do Mountain Partnership das Nações Unidas. Foi no seu programa de arte e aventura, de temática montanha, que foram incluídas as visitas a cavidades vulcânicas da montanha mais alta de Portugal. Assim, todos os sábados de manhã do mês de Janeiro a equipa da MiratecArts, liderada pelo Parque Natural do Pico, seguiu rumo a uma gruta ou furna na ilha montanha para uma experiência sonora única e irrepetível.

As cavidades vulcânicas e as performances

1|4 Gruta da Agostinha

Andar pela Gruta da Agostinha foi como andar por uma imponente e ancestral cidade subterrânea de largos e altos túneis, diferentes aberturas e possibilidades de caminhos e vestígios de carvão e barro pertencente a quem lá ia desesperadamente colectar água. Um autêntico anfiteatro natural onde foi possível apreciar um “já raro” público em absoluto silêncio e um “coro” de gotas de água que resultou numa melodia confortante e gentil, sempre embrulhada em audíveis sopros de ar quente, que ligou a “luz” no meio de toda aquela “escuridão”.

2|4 Furma Vermelha

A Furna Vermelha deu resistência à sua entrada com um labirinto de fetos de fortes verdes, um piso enlameado que engolia tudo, uma descida vertical em escalada e tapetes de velha lava vermelha. A “luz de palco” vinha de uma abertura superior e tornou-se enorme desconforto – ou não estivéssemos nós no subsolo – resultando em linhas sonoras graves e cheias embora desconexas, intercaladas de imponentes harmónicos e sons sobrepostos que se “atropelavam” na ânsia de sair em direção à luz.

3|4 Furna de Frei Matias

A Furna de Frei Matias materializou o equilíbrio entre luz e escuridão. Um escuro túnel de lava atravessado por poços de luz – que proporcionou a criação de um habitat para várias plantas – e envolto no mistério da lenda de um eremita que ali se terá refugiado e vivido em absoluta solidão – mas que a mim trouxe uma companheira que abriu a porta para os sonhos com a sua taça tibetana. No interior chovia tanto ou mais do que lá fora e toda a tensão à volta do mundo terminara ali naquele “coral” de gotas que puxavam a atenção para o agora e para um sentimento de carinho e benção da natureza. Tudo parecia leve – talvez com a ajuda de uma corrente de ar que atravessava todo o tubo lávico, passava por nós e levava tudo – e o respirar a base de tudo, originando simples e fluídas melodias que balançavam e desapareciam com o vento.

4|4 Gruta do Furtado

A Gruta do Furtado teve acesso através de um buraco estreito de descida quase vertical em direcção às entranhas da Terra. Um impressionante túnel lávico com uma confortante ausência de luz e um silêncio da cor das suas paredes revestidas de milhares de bactérias douradas. O som surgiu em constante clímax de vozes e gemidos misturados com notas ruidosas e ásperas de harmónicos e vocalizes, sempre em crescendo em direção a um abrupto silêncio profundo e culminando numa melodia aconchegante, confortante e que embalava. O público chamou-lhe de parto e renascimento, mas sobre isso nada sei. O que apenas sei é que a natureza resgatou-me, envolveu-me e puxou-me para si.

A experiência

Há algo no subsolo, longe da luz da superfície, que nos atrai e nos faz ter vontade de desafiar o que ainda hoje é desconhecido e desconfortável. Descer às cavidades vulcânicas é também descer fundo em direcção à nossa essência: a possibilidade de ligar-se de forma profunda e genuína com a natureza e todos os seus elementos e de entender que somos parte daquele todo, sem ego; a percepção dos contrastes e equilíbrios entre luz e escuridão, da força e fragilidade do silêncio e das potencialidades do som; o adaptar às possibilidades e a cada desafio encontrado, longe de qualquer zona de conforto, fazendo de cada novo elemento uma nova oportunidade de interação, confrontação e criação, por não haver ali as condições perfeitas de que um palco normal dispõe. Foi deixar a natureza começar o seu incrível espetáculo, permitir que o som entrasse, dançasse entre o todo e que fluísse instintivamente, e saber que foi e é perfeito tal como é.

Nota Biográfica

Luís Senra é um saxofonista e free improviser micaelense, natural de Rabo de Peixe, que tem como essência explorar e desenvolver performances onde o foco principal é a liberdade criativa, como meio de exploração do som e da conexão direta com o público e a natureza.

Desde 2017 tem se assumido como performer com projetos como o “O Silêncio da Montanha”, uma subida ao ponto mais alto de Portugal para uma performance integrada na programação do Montanha Pico Festival, a presença no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, e nas programações do Serralves em Festa, maior evento da cultura contemporânea em Portugal e um dos maiores da Europa, e do Azores Fringe Festival, o maior festival internacional de artes dos Açores para o mundo, que decorreu na ilha do Pico.

Em 2018 passou uma temporada na Comunidade Valenciana, em Espanha, onde esteve presente na programação de Improv Acción, micro festival de improvisação livre que teve lugar na cidade de Llíria, e colaborou com o Col-lectiu PenJa’m, um projeto multidisciplinar que junta a improvisação eletroacústica, dança e elementos audiovisuais através de improvisações coletivas, na cidade de Valência. Já depois de regressado aos Açores, integrou BRUMA Project, um projeto de confluência atlântica que une a música açoriana às sonoridades jazzísticas, à novidade da experimentação e ao fluir criativo da improvisação, para a tour de lançamento do seu álbum de estreia.

Em 2019 deu o arranque do Ciclo Performativo “Geometria Sónica” promovido pelo Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, e com curadoria dos programadores do Festival Tremor, e participou no àlbuns “Cowboy Microwave Music” do new-world crooner de Pittsburgh, Pensilvânia, Elliot Sheddy, e “Prima Pratica” da Creative Sources Recordings com os músicos Ernesto Rodrigues, Gianna de Toni, Biagio Verdolini e Luis Couto

Já neste ano de 2020 esteve em residência durante o mês de janeiro na ilha do Pico para explorações sonoras e performances em cavidades vulcânicas da montanha mais alta de Portugal, integrando a programação do Montanha Pico Festival.

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