Neste dia 1 de março de 2020 pelas 7 horas faleceu Manuel Machado Cardoso no Hospital da IlhaTerceira com 88 anos de idade

FALECEU O MEU AMIGO MANUEL CALHOCA

FECHOU-SE UMA “BIBLIOTECA”

TEXTO de Liduíno Borba
geral@liduinoborba.com

Neste dia 1 de março de 2020, pelas 7 horas, faleceu Manuel Machado Cardoso, no Hospital da Ilha Terceira, com 88 anos de idade. Vivia acamado em casa de seu filho Francisco Gabriel, na Canada de São Vicente, freguesia de São Mateus, a poucos metros da sua casa na Canada da Arruda, 105. Era viúvo de Paulina Maria Santos Borba. Deixa de luto seus dois filhos, noras e quatro netos: Paulo Manuel casado com Teresa; Francisco Gabriel casado com Carla. O seu corpo está na Casa Mortuária de São Mateus e o funeral será realizado, pelas 10 horas do dia 2, para o Cemitério da freguesia.
Nasceu no dia 8 de janeiro de 1932, na Quinta do Martelo, conhecido de uns por Manuel Canhoto e de outros por Manuel Calhoca, filho de Manuel Machado Cardoso e de Emília de Jesus Ramos.
Muito cedo, começou a trabalhar porque a vida a isso obrigava, mas encontrou tempo para ser um dos primeiros alunos do então criado Posto de Ensino de São Francisco das Almas (Cantinho), tendo concluído a 4.ª classe com distinção.
Poucos anos depois “ministrou” o ensino particular das primeiras letras, com o seu amigo José do Benedito, na casa deste, em frente à Ermida.
Profissionalmente, sempre soube tratar das “coisas das terras”, mas foi o ofício de pedreiro, caiador e pintor que ocupou grande parte da sua vida. Foi trabalhador e conhecedor das grandes obras dos meados do século XX, nomeadamente a obra das hídricas. Sentiu alguma pena de não ter aproveitado o ensino que tinha, a 4.ª classe, para ingressar na função pública – Guarda Fiscal ou Polícia – o que lhe tinha proporcionado uma maior estabilidade financeira e física, que a vida de pedreiro ou caiador não lhe deu.
Pai de dois filhos, que em termos profissionais honram o pai que têm, com créditos bem firmados. São dois especialistas em construção tradicional que têm dado um contributo à recuperação de edifícios antigos, com técnicas e materiais tradicionais. Parte da instalação da Quinta do Martelo – Centro Etnográfico – fica a dever-se ao pai e filhos, que ali colocaram o saber de uma vida.
Foi durante cerca de 40 anos o “contabilista” do Império do Cantinho, para além de também ter feito parte da comissão em 1959. A sua ação foi decisiva para o bom nome e estabilidade financeira que o Império tem em toda a ilha, aconselhando os membros das comissões que por lá passaram. Nesses anos que ali ajudou a fazer e apresentar as contas, poucos ou nenhuns problemas existiram com a “saca” do Império. Na década de 90, houve uma comissão que entendeu não necessitar dos seus serviços e sentiu-se como “despedido”.
Era um homem com uma formação intelectual sólida, com uma memória prodigiosa para relembrar factos pormenorizados com dezenas de anos, bom contador de histórias, com uma procura constante do saber, com uma perceção fácil dos factos, amante da cultura popular, nomeadamente o improviso, com um sentido de justiça muito equilibrado, contestatário permanente do Salazar – ou Salazambas, como lhe chamava – amigo do seu amigo, com muita força de viver e pena de morrer. Nos últimos tempos dizia “isto está a chegar ao fim”.
Fomos vizinhos de porta até 1996. Foi ele que me incentivou a comprar as “ruínas” da Casa da Terra e me deu muitas e boas dicas para a sua reconstrução. Conversamos muitas horas durante vários anos. Muito aprendi.
Foi mais uma “Biblioteca” que se fechou.
Adeus amigo Manuel Calhoca.

Casa da Terra Alta, São Mateus, 1 de março de 2020

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